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Aos 40



" Há pessoas que nos falam e nem as escutamos...

Há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam...

Mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre...."

(Cecília Meireles)



Escrito por Line às 15h48
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"A mesa de Pôquer teve apenas um vencedor e foi interessante a atitude dos perdedores: dois deles ficaram deprimidos e lamentaram o resultado. O terceiro, apesar do prejuízo financeiro, saiu tão satisfeito quanto o vencedor. Seu segredo foi repassar com todo o cuidado as jogadas. Sem lamentações, foi humilde e conseguiu aprender com seus erros até ter a certeza de que jamais os repetiria. "

Sara conheceu Inácio pela Internet, num site de encontros. No começo Inácio "declarou" ter princípios éticos. Errado. A ética não é declarada, mas praticada. Foi um blefe de início de jogo. Seu ar ingênuo desarmou a desconfiança de Sara, quando, por ser um desconhecido, deveria tê-la ampliado. Sara se sentiu admirada, tinha encontrado um sujeito que se identificou com sua vida esforçada, foi delicado na cama e na mesa, encontrou o homem perfeito. Errado. Um sedutor sempre detecta as carências da mulher e se deleita prometendo satisfazê-las, uma por uma. Sara teve a sensação de que tinha sido premiada por suas frustrações passadas. Errado. A esta altura era uma mulher indefesa e imersa no discurso do Inácio. Está pronta para o passo seguinte. Primeiro desaparecimento de Inácio, que contrariando suas palavras, abandonou a mesa e retornou à Internet. Fatos e palavras se separam. Sara deveria se retirar, mas desprezou os fatos e se prendeu às palavras, jogou sozinha, atenta às suas próprias cartas de amor unilaterais. Não esperou respostas e se ofereceu apaixonada, pondo todas as suas fichas sobre a mesa. Erro duplo. Nunca se deve ficar sem reservas e não era a sua vez de jogar. Inácio reaparece, está absoluto na partida, aceita a proposta amorosa de Sara e duplica a aposta: vão se casar, terão filhos e serão felizes para sempre. Só falta acertar detalhes, trocar as fichas por dinheiro e promessas por fatos. Novo blefe. Sara continua movida por palavras: Inácio desapareceu definitivamente. Fim de jogo. Sara deprimida contrata um detetive para se certificar de que não era um delírio. Parcialmente errado. Era um caso real entre duas pessoas independentes, não um casamento como Sara quis interpretar, fascinada por sua próprias carências. Sara queria acertar sua vida, amar, compartilhar seu futuro com um companheiro. Se Sara ficar deprimida pelo que perdeu, sua tristeza a fará evitar novos jogos, renunciará definitivamente ao amor. Se decidir ser mais profissional, conhecerá muitos homens e aproveitará sua experiência. Fará apostas mais prudentes e racionais e deixará o cavalheiro falar, porém prestando mais atenção aos seus atos e menos às suas palavras. Os melhores profissionais sabem que se blefa com palavras, mas ganhar ou perder, só mostrando as cartas.

(Alberto Goldin – Revista O Globo – 11.9.2005)



Escrito por Line às 06h43
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